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Espaço The Indies

Música: pagar ou não pagar?

Texto de Bruno Vieira
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Existe um tema incontornável no mundo da música que tem adquirido grande relevância nos últimos anos, que é se a mesma deve, ou não, ser paga. Na minha opinião a música deve ser paga como qualquer outro produto cultural, tal como acontece com os livros, filmes ou espectáculos ao vivo. Estes produtos culturais têm de ser vistos como fruto do trabalho de artistas, escritores, produtores, realizadores, entre outros, e que naturalmente terão de ser remunerados por duas razões: a da sua própria subsistência e também como garantia de darem continuidade às suas carreiras enquanto artistas.

Mais concretamente em relação à música e perante as vendas cada vez menores de discos, penso que a indústria discográfica acordou demasiado tarde para o problema, mas também não sou apologista da “música à borla”, como já referi. Para que as coisas não tivessem chegado ao ponto que chegaram, o equilíbrio já devia ter sido encontrado há algum tempo atrás. E de que forma? Baixando o preço da música na altura certa!

Em meados da década de 90 o preço médio de um CD rondava os 17 € aquando do seu lançamento e salvo raras excepções (como promoções), assim se mantinha durante uns bons tempos. Actualmente o cenário é um pouco diferente, um álbum novo raramente é lançado acima dos 15 € (mais barato ainda se tivermos em conta a evolução dos preços), mas passado algum tempo o seu peço vai baixando até fazer parte de uma campanha, onde é possível adquiri-lo praticamente a metade do preço inicial.

Tal realidade até poderia ser favorável às editoras, justificada pelo facto da música estar cada vez mais acessível, mas o problema reside precisamente aqui. Medidas como estas pecam por tardias e dificilmente irão reverter a actual tendência do mercado e contrariar a pirataria.

Voltando aos Anos 90, ainda antes da internet se generalizar já se copiava música ,se bem que em menor escala. Depois do surgimento daquela, veio a partilha generalizada e ilegal, agravando ainda mais a situação do mercado, ou seja, numa relação directa de quanto mais se pirateia, menos se vende.

As pessoas começaram aos poucos a pensar que a música de facto podia ser um bem gratuito, e as editoras mantendo uma posição irredutível não reagiram a tempo a esta tendência do mercado, que mais tarde viria a adquirir contornos de quase catástrofe para a indústria discográfica. Apenas como exemplo: não há muito tempo atrás o disco de platina ,que era atribuído a cada 40.000 exemplares vendidos, actualmente está nos 20.000.

Também não sou ingénuo ao ponto de achar que música mais barata seja sinónimo de ausência de pirataria, mas esta seria quase de certeza em menor escala. Para além da música sem custos para o ouvinte, a pirataria originou um novo paradigma que foi o das pessoas começarem a olhar para a mesma de forma descartável, do tipo ouvir e deitar fora. Como não custa nada também não se faz grande esforço para se gostar, sendo facilmente posta de lado caso não entre à primeira nos nossos ouvidos.

Quando adquirimos algo é porque reconhecemos-lhe valor, podemos não ter todos os discos de que gostamos, mas os que temos são especiais. À medida que vão fazendo parte da nossa vida, há coisas que só descobrimos algum tempo depois de os termos adquirido. Não há nada como a sensação de ser o próprio álbum a surpreender-nos.

O facto de comprar música não significa que esteja a dar razão às editoras, provavelmente as principais responsáveis pela actual situação do mercado. Tenho sim tentado encontrar formas alternativas de adquirir os meus discos. Curioso por um lado como a internet ao facilitar a partilha de música ilegal, no meu caso proporcionou aceder à mesma de uma forma mais económica e legal.

Acredito sinceramente que se um CD acabadinho de chegar à loja custasse no máximo 8 € e que passado algum tempo baixasse até aos 4€/5€, a história seria outra, o que é o mesmo que dizer que as pessoas acabariam por comprá-lo. As editoras ganhavam menos por exemplar vendido, mas eram compensadas pelo maior número de vendas.

Como sabemos, os preços actuais estão longe destes valores e já há pouco ou nada a fazer a fim de reverter esta situação. Com o mal feito, a indústria discográfica vira-se agora para a música ao vivo, de forma a tentar compensar a perda de receitas na venda de discos com aumento das mesmas através da venda de bilhetes. Será provavelmente o aspecto mais positivo desta guerra, entre mortos e feridos a música ao vivo é a que mais tem crescido. Todos sabemos que em matéria de concertos, estes são cada vez mais numerosos e abrangentes no que respeita a gostos.

 Compreendo por um lado que a indústria musical tenha tido necessidade de se reajustar e encontrar alternativas para se aguentar à tona, ainda para mais num contexto adverso de crise crónica que parece não dar tréguas, mas por outro também me custa a aceitar que não se tenham encontrado ainda mecanismos eficazes para combater o problema da partilha ilegal de música.

Actualmente a pirataria é olhada como algo aceitável e de certa forma desculpável, quando não o deveria ser. Ao ser tolerada acabará também por ser considerada como um não problema e a ilação que retiro é que muito poucos a querem ver erradicada. A interesse de quem?

Comentários

LeInsomniac disse…
Artigo interessante e muito bom! Se é verdade que o mundo da música é extremamente afectado pela pirataria, também a indústria do cinema se vê na mesma situação.

Um dos pontos interessantes por exemplo, é o facto de que hoje em dia, cada vez menos se vai alugar filmes para ver em casa. Para quê quando hoje em dia práticamente qualquer pessoa sabe onde encontrar o filme, sacá-lo com os seus 700mb ou em full-HD entre os 4 gigas e os 8?

Eu também partilho da opinião de que se deve pagar pelo acesso à cultura, neste caso, comprando os cds ou fazendo o download legal através de alguns serviços como o iTunes.

É simplesmente a forma honesta de se puder aceder a tal material, e sim é verdade que a pirataria, principalmente no mundo da música levou a "mastiga, deita fora" da música que se ouve, de fácil acesso, as pessoas pensam:"se não gosto nos primeiros 5 minutos, não ouço o resto do àlbum" pois desvalorizam imensamente o que adquiriram sem esforço nenhum.

No entanto, há um ponto "positivo" na pirataria. Há muita música mais "underground" que não se encontra à venda em nenhum serviço na internet, e que, através dos downloads ilegais, adquire reconhecimento através da recomendação, mais tarde, das pessoas aos amigos e assim sucessivamente.

Quantas vezes nos últimos 5, 6 anos, algumas bandas não terão chegado a um relativo sucesso, porque umas quantas milhares de pessoas sacaram o àlbum e isso eventualmente levou a que depois comprassem os seus albuns, ou dvds ao vivo ou até se dessem ao trabalho de ir ao estrangeiro para verem um concerto da dita cuja? Eu sei que já fiz isso. :)

Outro ponto positivo, é o fácil acesso que se têm a musica menos conhecida, de variadissimos pontos do mundo. Pôe-se sacar, ouvir, perceber, com tempo, se se gosta do àlbum e eventualmente quando se encontrar (se alguma vez se vir o àlbum à venda) comprar e juntar à colecção.

Há pontos negativos, mas até agora, pelo menos na minha opinião, encontrei imensos positivos, sendo um deles, o de que o meu acesso a música desconhecida mas de altíssima qualidade aumentou exponencialmente no espaço de 4 anos, comparado com o resto da minha vida, e não foi inclusivamente só a mim que isto aconteceu.

Não é que seja uma situação justa, mas, às vezes, hà males que até têm os seus pontos extremamente positivos.

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