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Crítica Musical-Parte II

Álbum «10.000 anos depois entre Vénus e Marte»

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A ideia é simples: vamos entrar numa nave espacial, fugir e voltar mais tarde a uma Terra sem os horrores do presente.
Texto de Tiago Queirós


«O Ultimo dia na Terra» dá início a esta jornada como apresentação de um mundo que não será o desejado, cheio de cimento e betão. Um planeta « que não pode mais viver». É em passo de despedida, num down-tempo , repleto de sons atmosféricos que nos levam directamente para os anos 70.

É difícil associar um álbum português nos melhores do mundo, seja de que género for, é sempre algo surpreendente. Mas o feito será certamente maior porque Cid canta a sua língua. Na língua  que poucos ouviram ser cantada pelo mundo. Há vida para além do Fado em Portugal, e não é recente.

O «Caos» que o planeta Terra verifíca é pretexto para um dos temas mais dinâmicos do álbum. Dançável e orelhudo, complementa-se pelo fantástico trabalho trabalho de Mike Sergeant (guitarrista) , colega dos tempos do Quarteto 1111. É em passo de corrida que se cria um dos sons mais épicos da carreira deste ícone da música portuguesa.


«Todos os caminhos levam a lado nenhum» é algo que ecoa na cabeça, assim como o baixo que marca os tempos da música de forma notável. Temos de sair deste planeta e voltar, quem sabe , daqui a 10 000 anos...

O ritmo quebra mais uma vez. De repente sente-se uma certa tranquilidade nas notas produzidas no teclado. O solo de guitarra é de outro mundo, e é assim que começamos a «Fuga para o Espaço».

É impressionante a forma como se espelha na música a progressividade de um tema, que apesar de abstracto, chega facilmente ao coração das pessoas,  conseguindo ganhar uma certa consciencialização sobre o panorama em geral : o mundo que nos rodeia.

Os back-vocals conseguem captar o nosso ser irracional,  neutralizando-o numa galáxia distante e deixando-o a flutuar algures a milhares de anos-luz. Ao nível dos vocals de «Great Gig in the Sky», sem nunca cair no cansaço de um tema mais sinfónico.

Neste capítulo quatro desta epopeia espacial chegamos finalmente ao nosso destino - «Mellotron, o Planeta Fantástico».

O destino é também ele o pico. Não só de um álbum como de uma carreira. Daqui para a frente o autor poderá fazer o que quiser que estará perdoado. Este conjunto deu um novo mundo ao mundo, e é em honra ao instrumento que marca toda a geração progressista e psicadélica que se baptiza este planeta de Mellotron.

Numa fase inicial sente-se um certo sentimento de descoberta, e diria até uma certo optimismo face ao desbravar de novas oportunidades que este novo mundo terá para oferecer... no entanto a Terra ficou para trás.

O segredo dos temas encontra-se nos sons atmosféricos e na opção dos tempos com o desenrolar da “viagem”.

O tema «10.000 anos depois entre Vénus e Marte» apresenta um novo planeta, ou quem sabe um planeta renovado, pronto a ser povoado e a começar do zero. Uma nova luz ao fundo do túnel. Uma nova luz no radar, entre Vénus e Marte. Mais uma vez os sintetizadores retratam um mundo ao nível do Star Trek, que nos conduzem até uma nave repleta de botões e luzinhas, onde pequenos astros se vislumbram pela janela. Mais uma vez o sentimento de nostalgia prevalece na música que demonstra uma certa calma. Mais um momento de reflexão antes da aventura.

É neste pequenos pormenores que se demonstra o génio de um artista, muitas vezes julgado pelas opções que tomou na carreira, mas que nem sempre fora apoiado como talvez fosse necessário.

«A Partir do Zero» retoma o ritmo rápido, e apesar de não ter feito referência, o trabalho do baterista é essencial. Sem ele,  o efeito atmosférico dos sintetizadores não seria de forma alguma maximizado.

Apela-se ao renascimento de um  planeta e de uma civilização. Aplaude-se um novo início. A música volta a encarnar um sentimento optimista. Estamos de volta ao planeta Terra.

«Memos» relembra uma viagem de 10. 000 anos que deixa as suas marcas, memórias e lembranças. E é pegando no instrumental de «Fuga para o Espaço» que se relembra a fuga... Este é um tema algo confuso no encaixe do álbum, mas possivelmente o autor tenta relembrar que noutros tempos tivemos de fugir e que temos que ter isso em mente, de forma a não cair nos mesmos erros.

José Cid despede-se nesta jornada presenteando-nos com «Vida ( Sons do Quotidiano)». É assim que termina uma das jornadas mais subvalorizadas da música portuguesa, naquele que deveria ser um álbum de culto e que só o tempo ditará o inevitável.


Este tema ainda revela algumas influências do Quarteto (relembre-se que fora lançado como EP anteriormente) mas o uso dos efeitos sonoros bem ao nível da geração psicadélica dos anos 70 demonstra que este é um álbum completo, com principio, meio e fim. Um fim que apresenta uma criança universal que apela à paz entre os homens como um Messias do futuro. Um fim longe de ser o final.

Infelizmente, o público não se demonstrou receptivo a este álbum que face aos seus custos tornou -se dispendioso demais para Cid arriscar um seguimento no rock progressivo. Daqui para a frente muitos dizem que a carreira de José Cid perdeu-se, mas simplesmente vendeu-se às suas próprias necessidades, e isso ninguém pode julgar.

Da próxima vez que virem este senhor na televisão, lembrem-se que há muito mais na sua carreira , do que macacos que gostam de bananas.

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