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Som ao Vivo

Tindersticks (27 de Outubro)


Porque esta noite o silêncio não se fez ouvir, no Coliseu do Porto

Apesar de serem habitués das casas de espectáculos portuguesas, cada concerto de Tindersticks transporta-nos para uma outra dimensão – a intimidade, as sensibilidades e as dores da alma e do coração dos amores e desamores.

Texto de Susana Terra

A música dos Tindersticks é, seguramente, a banda sonora de muitas vidas, sobretudo das relações falhadas, da mágoa e desilusão, do vazio que gela a alma e alimenta o sofrimento ou a perda e o nada. A voz de Stuart Staples sussurra-nos ao ouvido estórias de percursos solitários, do encontro e desencontro, da impossibilidade de ser.

São 22h e a impaciência cresce entre os espectadores inquietos. Escuridão total. Avistam-se os vultos que se posicionam em palco. Stuart Staples e a sua banda, composta por seis músicos, rasgam a cortina de silêncio para apresentar o último álbum de originais “Falling Down a Montain” de 2010 sem negligenciar, claro está, a discografia passada. Curiosamente, a abertura coube à canção “The Organist Entertainers” do penúltimo álbum (The Hungry Saw, 2008).

Do novo álbum trouxeram-nos canções como “Falling down a Mountain”, “Peanuts” (uma despretensiosa e naîve canção sobre o amor e amendoins que no álbum conta com a participação de Mary Margaret O’Hara), “Keep You Beautiful”, “She Rode Me Down”, “Black Smoke” (canção pop, leve e ritmada), “Factory Girls”, “Harmony Around My Table”.

Dirão alguns que os Tindersticks já não são o que eram…a sonoridade actual da banda distanciou-se um pouco face à que a caracterizou nos anos 90 e à qual não serão alheias a sucessivas mudanças da formação dão grupo. Desta feita, estiveram em palco seis músicos, salientando-se a polivalência de alguns deles – o violoncelista é também saxofonista o teclista dá uns toques na percussão; o próprio Stuart por vezes agarra a guitarra e a pandeireta. A secção rítmica é avassaladora, sendo que o novo baterista que integra a banda faz jus ao estatuto da mesma.

O único ponto negativo que se poderá apontar ao colectivo prende-se, como avisou logo no início Stuart, com alguma falta de “lubrificação” do todo – há já algum tempo que não tocavam juntos e isso transpareceu em pequenas hesitações nos temas, embora com poucos furos a registar..

 
E eis que se escutam os acordes iniciais da “Raindrops” (1993). O violoncelo cortante, pequenas lâminas afiadas que rasgam os tecidos dos corações, e o crescendo de intensidade da música transportam-nos para o melancólico universo da incompreensão mútua, do distanciamento e do abismo que se aprofunda entre dois seres que vão perdendo a intimidade. Sem dúvida um dos grandes momentos da noite para os fãs de longa data.

Segue-se outro dos momentos áureos da noite, assim que no ar do Coliseu penetra a conhecida linha de baixo que abre “Before Your Eyes Close”, do álbum Simple Pleasures (1999), num registo mais groovy, a tender para a soul que caracteriza este quarto álbum de estúdio da banda. Voltando aos primeiros álbuns dos Tindersticks, ouvimos a “She’s Gone” (Tindersticks II, 1995), num registo doloroso entrecortado pelo leve e rápido martelar das teclas do piano e do mesmo álbum “A Night In”. E repentinamente escutamos a “Tyed” (1993), a (não) melodia que em crescendo nos arrasta para o caos, a crueldade e frieza do banho de sangue que escorre pelas paredes, a demência e esquizofrenia das cordas do violoncelo esticadas à potência do mais agudo e cortante som que dele se pode extrair.

Não estando especialmente comunicativo, Stuart manteve sempre uma postura de total entrega à música – os sentimentos, melhores ou piores transpareciam no seu rosto e na linguagem corporal – ignorando até um sonoro piropo oriundo do público: uma voz feminina que grita a plenos pulmões “I love you Stuart!”

E fez-se silêncio, e o silêncio nunca soou de forma tão ensurdecedora assim que a banda sai do palco. As almas insatisfeitas clamam por mais, gritam, batem com os pés no chão. Todo o edifício estremece ante a súplica do público. Os Tindersticks regressam ao palco, os ânimos serenam e é iniciado um estrondoso encore que recupera mais clássicos - “City Sickness” (1993), “Bathtime” (Curtains, 1997) e “Tiny Tears” (1995)

Fica sempre um certo “amargo de boca” após um concerto dos Tindersticks. A voz de barítono, melancólica, arrastada e dorida continuava a soar nos ouvidos. As dores de alma e os fantasmas do passado revisitaram algumas pessoas, nessa noite.

Comentários

Anónimo disse…
Onde se lê "trompetista",leia-se saxofonista....

mea culpa, mea culpa

Susana Terra.
Irene Leite disse…
Corrigido.

Obrigada, os leitores sempre em primeiro lugar.

Cumprimentos,

Irene Leite

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