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Dá que pensar...

Afrodite
Deusa do amor (Mitologia Grega)



A ti,
            De quem desperto agarrado às palavras
            Envolto no manto solene dos teus mistérios


            Tão só confesso que hei-de resgatar a tua pálida recordação de entre quantas lembranças ousaram tocar a felicidade, e contudo sem a virtude, a mágica qualidade de um sonho com o sabor amargo e doce do amor. E, se os amantes sonham, peço então que pela tua mão eu possa apenas sonhar. Sem a cinza no olhar, sem a névoa na alma, sem que inquieto eu tenha de perscrutar em silêncio enquanto repousas no teu leito de fantasias por mim estendidas. Quem me chama, por que tapete de conchas me levas, será enfim o mar nossa cama, quantas manhãs terei de vencer até que se apaguem de vez minhas trevas? Foi ele, foi o mar que pousou na enseada os cabelos revoltos, que te embalou no regaço em que se abria a madrugada, até nascerem do oiro macio os lençóis de cetim para num só nosso jardim os poros molhados poderem colados verter com os lábios suados, e na vida da espuma amar e morrer. Por que te ausentas de mim? Aí, aí é que habitas, na mansarda em que se fazem dos dias as noites sinistras, e as figuras sombrias aplacam-me os passos. Sabes, houve um só instante em que a minha mão fria sentiu a tua mão fria, um instante da minha ilusão e da tua dor desenhada na parede, em que desejei não regressar. Através das cortinas entrava uma luz pálida – sempre tivemos para nós o amor apenas pela calada da noite – e dançavam imperceptíveis com um sopro de afronta. Mas os poros haviam adormecido no silêncio do meu desespero e na eloquência dos teus receios. Foi o meu maior grito, fervendo a carne no desatino da sorte, dadas à luz na entrega dos corpos as promessas dos dedos que não chegam e das lágrimas com nome de sémen, espessas como a luz num vórtice dos olhares e na ânsia de mais, e mais eternidade no ventre dos segredos. Uma pérola no ventre de aventura e quando quis dizer teu nome não o soube. Será que este amor, de tão radioso, se tempera nos deslumbramentos nocturnos como o fogo das estrelas lançado ao firmamento, na ausência de um nosso tempo para as palavras?

            Que sorte te desvia do meu caminho? Apartados na nossa condição humana persigo uma sombra, uma alma desejada sem que a toque nas feições, sem permitir ser prisioneira dos afectos e confidente da velhice que se adivinha. E o mais é pó e dor, perguntas a que roubas as respostas. Entretanto, se além das tristezas vincadas como rugas, se além da minha ignorância que as artes do disfarce não diminuem, se além das aparências em aceitar não mais seres minha, à beira-mar ou no coração da mansarda, tu desafias o destino numa qualquer página dos dias e te revelas em corpo, estremece o mundo.

            Anda, regressa ao teu mar, desce as escadas da mansarda com os pés sobre a minha própria sombra atenta a ti, vem ver nascer o dia sobre os escolhos das nossas vidas, esquece quanto te não atire para os meus braços e permite que eu descerre o véu e te pouse nos seios cada uma destas letras em forma de beijo. E do fundo das águas cada reflexo do amor trará consigo uma outra letra do teu nome, cada assomo do desejo nos fará manter à superfície de um morno namoro. E do tapete das conchas haveremos de vislumbrar no jardim a casa dos sonhos por vir. Talvez assim eu possa, daqui deste meu sonho, arrancar-te da teia em que te envolve o teu, e num leito já iluminado as memórias da mansarda se vão como areia no sopro do tempo. E cada um de nós possa fazer ressurgir a aliança da cor dos cabelos que as águas benzeram e com os nomes que o lacre de medo não ouse suster.

            E, ainda que Afrodite se sinta ofuscada, Diónisos me fará beber sua arte e de todo o solo árido brotará o amor, ele que será por nós bebido da taça em louvor de tudo o que inspira.


Luís Vendeirinho

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