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Crónica: "A segunda vida do Vinyl"


Costuma dizer-se que as modas são cíclicas e que o que esteve na moda ontem, regressa, volta a desaparecer, voltando novamente a estar na moda. O exemplo mais actual são os óculos de sol Wafarer da Ray-Ban, mas, como é de música que estamos a falar, não há melhor exemplo do que aquele que já foi o principal suporte musical até finais dos Anos 80, o seja, o disco de Vinyl.

Com o surgimento do CD, aparentemente indestrutível e com melhor qualidade de som, no início da década de 80, estava finalmente encontrado o suporte musical que daria continuidade ao velhinho Vinyl. No entanto o CD só se imporia verdadeiramente como suporte musical no decorrer da década de 90.

Exceptuando o circuito dos DJs ou dos melómanos mais puristas,o Vinyl parecia ter os dias contados até que, no final da década de 90, surgiu um súbito e tímido entusiasmo por este suporte. Algumas das grandes lojas de música dessa altura começaram a ter discos de Vinyl expostos nas suas prateleiras, mas foi sol de pouca dura.

O entusiasmo foi-se à medida que uma nova tecnologia se ia estabelecendo, o MP3, embora o CD continuasse a reinar. Parecia que o Vinyl estava definitivamente morto e enterrado e que o mercado não tinha espaço para um formato de grandes dimensões, quando a tendência era a miniaturização com vista à portabilidade (discmans, minidiscs e mais tarde leitores de mp3).

Com o decorrer dos “noughties” (ou anos 2000s), o CD foi gradualmente perdendo o poder que tinha conquistado na década anterior, embora mantendo-se como suporte standard. Contudo este estatuto dificilmente garantirá a sua sobrevivência à medida que a generalização da partilha maioritariamente ilegal de música se foi generalizando. As regras agora são outras, de certa forma tolera-se a pirataria, embora não oficialmente, ou seja, as pessoas aos poucos deixaram de comprar música, mas passaram a assistir mais a concertos.

No meio deste fogo cruzado entre vencedores e vencidos surgiu um nicho de mercado, tipo terra de ninguém, novamente ocupado pelo improvável Vinyl. O velhinho disco que muitos jovens de hoje olham com curiosidade está de volta. Apesar de se tratar de uma tendência mais consolidada quando comparada com a de final dos Anos 90, jamais será um regresso ao passado. No entanto não deixa de ser interessante o regresso do Vinyl às prateleiras das poucas lojas que ainda existem.

As razões que estão na origem deste renascimento poderão ser várias, mas quase sempre relacionadas com a desmaterialização dos suportes musicais. Ou seja, à medida que o CD, enquanto último suporte musical materialmente falando, se for extinguindo, abrirá portas ao mercado do coleccionismo que passará naturalmente pelo regresso ao Vinyl.

Para alguém cuja única forma de obter e consumir música seja através de downloads, a escolha de um suporte alternativo para colecção, mesmo que nunca seja “tocado”, passará muito mais pelo Vinyl do que pelo CD. Devido à sua dimensão as capas dos discos de Vinyl sempre tiveram muito mais “sex appeal” do que as de CD.

Restam ainda os puristas que jamais escolherão o CD, preferindo investir pequenas fortunas em sistemas que lhes permitam tirar o maior partido possível do som mais quente do Vinyl. Seja qual for o caso, o CD parece ter os dias contados a médio prazo, enquanto que o Vinyl embora marginal sobreviverá por muito mais tempo. Depois de um interregno de quase duas décadas, este formato parece ter ganho a batalha pela sobrevivência.

Bruno Gonçalo Vieira

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