Avançar para o conteúdo principal

Crónica : "Os REM nos anos 80"


Quase todos conhecemos a carreira dos REM desde Out of Time. Singles como Losing My Religion, Shiny Happy People, Near Wild Heaven ou Radio Song tornaram-se tão populares que praticamente só nos lembramos da banda de Michael Stipe a partir do início dos Anos 90. O sucesso dos álbuns seguintes, em especial Automatic for the People, reforçaria a ideia que os REM eram de facto uma banda dos Anos 90.


Nada mais errado! Quando se tornaram estrelas à escala mundial levavam já na bagagem onze anos de carreira e seis álbuns editados. Os poucos que conheciam o percurso eighties destes veteranos podem ter sentido que a banda se vendera aos milhões da Warner, por outro lado, os novos fãs pouco conheciam do passado da banda.

É certo que algo mudou desde que deixaram a independente IRS, mas os REM souberam adaptar-se e criar uma sonoridade mais eclética de forma a chegar a uma audiência mais vasta, sem nunca abdicarem no essencial da sonoridade que os caracterizou desde o início.

Apesar do sucesso decrescente nos últimos anos, o reconhecimento do valor e importância da banda nunca foram postos em causa, sendo ainda hoje considerada uma das mais importantes da história do rock e fazendo parte do" Rock and Roll Hall of Fame ", prova de que o culto ainda está vivo. A revista Rolling Stone atribuíra-lhes já o título de " Melhor Banda Rock da América ". Vamos então recuar até ao início dos Anos 80 e ver por onde andavam...

Os REM formaram-se em 1980 na cidade de Athens, Geórgia, berço de outra popular banda americana, os The B-52`s. O quarteto era então composto por Bill Berry (bateria), Peter Buck (guitarra eléctrica), Mike Milss (guitarra-baixo) e Michael Stipe (voz).

O percurso inicial dos REM foi semelhante ao de muitas bandas de garagem: tocavam em pequenos clubes e liceus, sendo especialmente apreciados por estudantes. Editam o primeiro single Radio Free Europe um ano depois, que depressa se tornou num smash hit do circuito alternativo. Ao contrário de muitas bandas indie , os REM queriam ir mais longe sem perderem esse espírito.

Deste modo a sua sonoridade procurava conciliar o moderno com as raízes da música tradicional americana, demarcando-se da violência do punk e do rock mais pesado, mais associados a um espírito contra-corrente. Os REM de certa forma também queriam sê-lo, embora adoptando uma linguagem mais pop.
Depois de Radio Free Europe, veio o EP Chronic Town.

O primeiro álbum Murmur, já na independente IRS, é então editado em 1983 e incluía no alinhamento o single de estreia, bem como Perfect Circle eTalk About the Passion. Aclamado pela crítica, estava dado o mote para uma carreira discreta mas feita de passos seguros até 1987, ano de lançamento de Document.

Pelo meio foram editados três álbuns, Reckoning (84), Fables of the Reconstruction (85) e Lifes Reach Pageant (86), sem beliscar os créditos colhidos no primeiro álbum. Temas como (Don`t Go Back to) Rockville, 7 Chinese Brothers, Pretty Pressuasion, Can`t Get There from Here ou Fall on Me eram de passagem obrigatória nas rádios de escola.

Os REM podiam não ser conhecidos do grande público mas tinham muitos fãs no meio estudantil que garantiam audiência nos seus espectáculos, geralmente realizados em pequenas salas.

Apesar da crítica favorável as vendas não deslumbravam e para uma sociedade conservadora como a norte-americana, o envolvimento de Michael Stipe em questões políticas e ambientais contrárias à administração republicana, um pouco à semelhança de Morrissey contra as instituições inglesas, dificultava a chegada ao palco maior. Rotulados de banda contra-corrente parecia que as luzes da ribalta estavam longe para os REM e o lançamento de Document em 1987 estava destinado a ser uma espécie de evolução na continuidade, puro engano.

Deste álbum sairiam dois singles (The One I Love e It`s the End of the World...) que dariam à banda o impulso que tinha faltado nos álbuns anteriores. Já não eram apenas alternativos ou independentes como começavam a chegar já a um público mais vasto não só nos Estados Unidos como também na Europa.

A popularidade crescente não passou despercebida à Warner e, um ano depois, assinam um contrato milionário com a multinacional. Estava dado o salto que permitiria à banda dispor dos recursos até então fora do seu alcance. Para muitos era o fim do espírito independente mas, ao mesmo tempo, um novo desafio e novas oportunidades.

Ainda nesse ano é lançado Green, sexto álbum de originais que revela uns REM mais ecléticos. Apesar do sucesso dos singles Pop Song 89, Stand e Orange Crush, a crítica classifica o álbum de incoerente. Para tal muito terá contribuído Stand, orelhudo e delicioso para uns, descartável para outros.

A extrema regularidade com que editavam álbuns (de 83 a 88, um por ano) foi quebrada depois de Green. Pela primeira vez os REM estavam sem gravar mais de um ano e a espera durou até 1991, ano do lançamento de Out of Time. Mas a espera revelar-se-ia proveitosa...

Bruno Vieira 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Slimmy

Não faço as coisas para chocar”
Chama-se “Be someone else” o novo álbum de Slimmy. O músico garante que está mais maduro , mas que persegue com o trabalho a que estamos habituados. “Não faço as coisas para chocar”, avisa em entrevista ao jornal Metro.
Slimmy apareceu há dois anos no panorama musical português ,mas já deixou marcas, não só a nível musical (a sua música chegou a series de televisão como o CSI), mas também pela indumentária. Agora temos  “Be someone else” para continuar a história. 
O álbum “reflecte o amadurecimento, uma maior estabilidade a nível mental. Embora mantenha a minha irreverência”, explicou o músico ao jornal Metro. Slimmy garante, contudo, que o que importa é “fazer músicas que as pesssoas possam cantar e letras que as pessoas possam entender. Não faço as coisas para chocar”, garante.
As músicas reflectem experiências do dia a dia de Slimmy. “Há uma balada , “I can´t live without you in this town”, que é dedicada a uma rapariga do Texas que conheci em 2004,…

Go Graal Blues Band no "Luso Vintage"

Hoje em dia fazer música na língua de Shakespeare é tarefa fácil, mas o mesmo não acontecia em 1975, quando Portugal enquanto democracia acabava de nascer, quando ainda vigoravam valores nacionais como os três grandes F’s (Fado, Fútebol, Fátima).

Texto de Patrícia Rodrigues
Foi neste cenário marcado pelo obscurantismo cultural e desconfiança do estranho que surgiram os “Go Graal Blues Band”. O grupo marcou pela musicalidade contagiante e uma alegria e optimismo próprios da cultura americana, que se definia cada vez mais como um estilo próprio de vida.
E foi assim que, após um nascimento atribulado, um grupo de rapazes na casa dos vinte decidiu reunir-se para tocar e cantar Blues, sendo eles: Paulo Gonzo (voz e harmónica), João Allain (guitarra solo), Raúl Barrigas dos Anjos (bateria), Augusto Mayer (harmónica), António Ferro (baixo), João Esteves (guitarra) e José Carlos Cordeiro (voz principal).
Apesar do curto percurso de oito anos e várias mudanças no seu line-up, a banda…

Temos uma nova casa...Visitem-nos!

São quase 8 anos desta vida sonora. E ainda bem.
Em honra ao primeiro nome deste media, o eterno Som à Letra, criarei uma rubrica, na Scratch Magazine.

Por enquanto estamos a reunir arquivo mas contamos convosco. No âmbito da tese de mestrado vão ser analisados os anos I e II da publicação , que podem ser encontrados neste blogue e em cibersomaletra.blogspot.pt.

Para continuar a seguir a nossa "história" basta seguir o seguinte link:

scratchmag.org