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Um vendedor de tractores a “rockar”


        Arte & Ofício



No final da década de 1980 surgiu uma banda, em Portugal, por sinal bastante obscura, com um nome muito original: Agricultor Debaixo do Tractor.
Gravaram umas “demo-tapes” e deixaram, pouco tempo depois, de existir.
Não é, no entanto, esta banda o motivo desta crónica.

Antes do “boom” do rock português, no final da década de 1970, as bandas que tinham uma projecção nacional não eram muitas, mas conseguiam fazer da actividade musical profissão.
Entre elas contavam-se os Tantra, Arte & Ofício, Go Graal Blues Band ou Ananga-Ranga.
Eu próprio cheguei a ver estas bandas todas ao vivo, na região da Guarda, onde vivia (e ainda vivo).
Com os concertos, sobretudo nas Festas de Finalistas dos liceus e as vendas de discos os músicos destas bandas conseguiam viver, embora com limitações.

Os Arte & Ofício, por exemplo, que eram do Porto, correram o país todo, muito antes do “boom”.
Os Arte & Ofício eram uma banda totalmente urbana, com um som muito hard rock e algumas pinceladas de psicadelismo, que trouxeram um “ar fresco” à música nacional, embora tivessem feito toda a sua carreira cantando na língua de Shakespeare.

António Garcez, hoje a viver nos Estados Unidos era o vocalista dos Arte & Ofício. Era um dos grandes “performers” da cena musical nacional, elogiado por quase todos os críticos musicais da época.
Para além da sua actividade como músico resolveu tentar uma actividade paralela que lhe permitisse amealhar algum pecúlio para fazer face às necessidades. Essa actividade era a de vendedor de tractores.

Era curioso que sendo a vivência do cantor totalmente urbana e centrada na música com grandes influências anglo-saxónicas, fosse ele um vendedor de máquinas agrícolas, ligadas a uma actividade que nada tinha a ver com vivências urbanas.                        

 Para mais no final da década de 1970, quando os agricultores portugueses (e sobretudo no Norte do país) não eram muito letrados (antes pelo contrário, mas sem qualquer desprimor). Já não falamos no seu iletrismo musical, que deveria andar a um nível ainda pior.

Nem sequer se imagina que tipo de conversas poderiam ter os agricultores com o Garcez, quando este lhes tentava vender os tractores. De certeza que não falariam de música. Se calhar nenhum deles saberia, sequer, quem era António Garcez na cena musical lusa.
O que é certo é que Garcez vendeu alguns tractores.

Ao contrário de Fernando Nascimento, outro membro dos Arte & Ofício, que também arranjou outra actividade paralela à música como funcionário do Banco de Portugal (de que já se reformou), António Garcez não se manteve muito tempo como vendedor de tractores.
Mas não deixa de ser curiosa esta história…


João Aristides Duarte
http://rockemportugal.blogspot.com/

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